"Tiro fotografias várias à minha amada deitada sobre a relva, mas não gosto de ser fotografado.
Entre um homem e uma mulher poucos são os sentimentos recíprocos.
O sexo é um antídoto para esquecer isso, que às vezes resulta. Eu digo-lhe com o ar mais sensato que tenho:
"A vida são muitas coisas. O amor é só uma entre muitas".
E ela responde de seguida:
“A vida pode mudar muito mais do que se espera. O amor é o que está acima de tudo. Tudo altera. Nos teus braços morreria".
... e eu fico envergonhado.
Meu amor, à pressa de chegar a alvorada, ser a água a correr. Os animais espremessem e dormem, mas eu não mais terei sono e vou despir-te tão lentamente como se tece o tecido de uma estação. Os dedos a arder, na doçura negra dos teus cabelos, e à volta tudo se ergue e respira.
Porque tudo na vida pode ser um filme, tudo na vida pode ser Como no Cinema"
Eu
sou o que tu quiseres. Queres? Quando quiseres, não queres? Quando me
encontraste, já não sabias o que procuravas? Só de longe o soubeste, e
agora esqueceste? Não fomos feito para o amor, acrescentas agora? O que
não quer dizer que não possamos amar-nos sempre outra vez, e pode ser
mesmo a única coisa digna que nos resta? Não foi para isso que fomos
feitos, então? Não fomos feitos para o que quer que seja, nascemos,
crescemos, envelhecemos, morremos e é tudo, e é mais do que o
suficiente? Interessa o quê, o que é que interessa, diz-me, quando o
barco começa a naufragar? A atitude dos passageiros? Se começam a cantar
ou a chorar, ou simplesmente continuam a fazer o que estavam a fazer?
Saber que o barco vai naufragar e continuar? O que interessa é a
atitude, insistes, mais não podemos? Não podemos fazer nada mas podemos
mudar tudo, é isto que queres dizer? Começar por nós, terminar em nós?
Mudar-me a mim e mudar o mundo, como é isso? Começar por mim e acabar em
mim e mudar tudo à minha volta, como assim? Se já reparei? Que ao
tornar-me melhor o mundo fica melhor? E ainda me pedes que não tenha
medo e deixe de esperar o impossível? Que o barco pelo qual espero para
me levar daqui para fora não vai chegar nunca? Que o barco por que
espero é o barco em que vou? Quando partiu esse barco, gostava eu de
saber? Há muito? Antes de mim? Mesmo sem mim? E vai naufragar, de
qualquer modo vai naufragar? E que todos os que passaram aqui o
souberam, e mesmo assim isso não impediu de fazer o que tinham a fazer?
Que não sou só eu? Que uma corrente nos leva? Uma corrente de palavras?
Uma corrente de amor? Passar o que por nós passa, que o que passa nem é
meu, nem teu, nem nosso, nem as palavras, nem o amor? Passar isso o
melhor que possa, e mais nada senão isso? Queres que me cale?
(Excerto retirado do livro "Muito, meu amor", de Pedro Paixão)
“É tão estranho conhecer uma pessoa. Tão difícil que parece
impossível. Não existir e passar a existir: uma pessoa inteira, um mundo
inteiro. Onde caberá um mundo inteiro neste mundo pequenino? Como é que
se consegue? Como é que se faz?” Pedro Paixão
“É tão bom sentir o que sinto. Que alguém, e és tu, me quer com o maior
cuidado para não se enganar, iludir, mentir a si próprio que não me está
a confundir, sem querer, com o que desejava ver, sempre esperou
alcançar, sonhou quando era criança num sonho que ficou, quer mostrar
aos outros, ao pai em especial, a quem quer que seja, pouco importa.
Não, do que tu gostas mais em mim é dos meus pecados, dos meus defeitos
físicos, de tudo o que não consigo ser, onde falhei, onde não pára nunca
de doer, é isso o que tu queres ver, o que queres ter perto de ti,
queres aceitar e cuidar, só isso, e o resto, só se vier com isso, porque
é isso que tu amas em mim. Será isso? Será assim? Será possível pela
primeira vez? Pode ser, talvez seja disso feito o nosso amor. Pelo menos
grande parte, meu querido.”
"Só tu me fazes dizer as coisas que te digo. Estou à
tua espera. Quando chegares vou-te morder devagarinho. Só até fazer
doer. Agora, para que o tempo passe, vou escrever o que passa pela minha
cabeça. É então assim.
Eu sou um menino, tu uma menina. Um menino é em tudo diferente de
uma menina e em tudo semelhante. Isto é a primeira complicação. Como
todas as outras derivam desta e resumem-se nesta não vale a pena perder
tempo com mais complicações.
Restam as coisas simples. São as mais belas. Por exemplo o haver uma
pessoa que goste de outra. Isto é o mais belo de tudo o que há no mundo
por mais que se procure por todo o lado. O que é que quer dizer uma
menina gostar de um menino ou um menino gostar de uma menina? Quer
dizer: fazerem tudo um pelo outro. O tudo é que pode ser maior ou mais
pequenino. E o que quer dizer um menino gostar de uma menina que também
gosta desse menino? Isso é o fim do mundo.
De vez em quando, muito de vez em quando, há o fim do mundo. O mais
engraçado é que ninguém nota. O menos engraçado é que ninguém aprende.
Isto é: ninguém sabe nem como começa nem como acaba, nem como se repete.
Para dizer a verdade nem se sabe como dura um fim do mundo em que duas
pessoas podem fazer tudo, são tudo, sem mais ninguém. Não está bem.
É por isso que há os amigos. Os amigos sobrevivem aos fins do mundo.
Este é o único critério. A amizade é tão bonita como o amor e tem a
obrigação de durar mais tempo. Por aqui se vê que o tempo é muito
importante. E o que é que dura mais tempo? É a família. É mesmo a única
coisa que dura do princípio ao fim. Porque o pai só é pai quando tem um
filho e o filho só é filho quando tem um pai e assim é como se fosse o
filho a criar o pai. Isto parece muito complicado mas é muito simples e
portanto muito belo. e por aqui se entra na religião.
()
A vida não é uma sucessão de pequenos fins mas sim uma sucessão de
pequenos milagres e não digo mais nada até tu chegares para te começar a
morder. Só, só até doer."
"Ela sabe que não se consegue precisar o momento, a hora, o dia em que uma pessoa fica apaixonada. Sempre um pouco antes, sempre um pouco depois. Ela sabe que não se pode revelar definitivamente como, e porquê, uma pessoa ficou apaixonada por esta pessoa, precisamente esta, e não por outra muito parecida com ela. Qualquer razão perde a razão. O que uma pessoa pode sentir é se está ou não apaixonada. Que houve um estreito abismo, sem saber quando nem como, sobre o qual sabe que saltou. Sem poder avaliar as consequências. Como uma doença. Não é só isso. Uma pessoa quando está apaixonada não está continuamente apaixonada, muito menos com a mesma intensidade. Varia muito. Acontece uma pessoa duvidar se está ou não apaixonada. Ficar totalmente baralhada. É mais fácil uma pessoa sentir a paixão por outra pessoa quando ela não está presente. Isso parece-lhe um facto. A sua ausência aumenta o poder da sua presença. A paixão é mais sua, mais inteira, há menos interferências. Com ela é assim. Sente um vazio que só o outro, único no mundo todo, vai poder preencher, sarar, cuidar. Uma espécie de saudade imperiosa. Uma questão de vida ou de morte."
"Uma pessoa não é quem quer ser, não faz o que gostava mais do que
tudo fazer, não dita a vida que a leva consigo. (...) Salvo nos momentos
de paixão em que vivemos a tremenda certeza de estarmos a ser quem
somos. (...) A paixão é um engano em que nos queremos enganar mais do
que tudo. Uma partida pregada pela vida que depois nos reconduz ao lugar
quotidiano ao qual pertencemos e nos vai construindo e desfazendo. Dia a
dia, todos os dias. O castigo de ter querido ser mais do que se é. Do
que se pode. Ela pensa várias vezes em coisas deste tipo. Coisas que
apelida do tipo inútil. Que não parecem ajudar. Sem aprofundar muito.
Com receio de pensar demais nisso e ficar retida algures numa dúvida
cheia de perigos."